terça-feira, 1 de outubro de 2019

O som da magia

Como de costume, caminhava lentamente pelo refeitório em direção ao pátio, ao mesmo tempo que carimbava o chão com suas botas enlameadas. Alguns a olhavam, outros apenas continuavam suas refeições – uma massa com carne e temperos verdes, que possuía feições estranhas. Agora, já do lado de fora, sentou-se em uma pedra e pôs-se a dar garfadas naquela gororoba. Entre as mastigadas, alguns resmungos:
– Não faz sentido! Ontem a noite eu guardei no armário como sempre faço e então hoje de manhã não estava mais lá! – Reclama se direcionando ao corvo que estava na baixa cerca que delimita o local.
– Michaela não fale de boca cheia, está cuspindo em mim! – O corvo repreende.
– Desculpa Devin…– Diz Michaela já limpando suas bochechas lambuzadas.
O lanche é enfim terminado e Michaela continua seus protestos; não era possível que seu triângulo houvesse desaparecido da noite para o dia – ou pelo menos não deveria ser. “Um objeto de tal importância e significado certamente havia sido roubado para quaisquer forem os fins”, era o que Michaela supusera.
– Escute aqui Mike, não precisa se preocupar com esse problema agora, depois da aula haverá bastante tempo para procurá-lo onde quer que esteja…– Devin tenta acalmá-la.
– Não tenho que me preocupar? Está falando sério? OU SERÁ QUE NÃO LEMBRA QUE SE NÃO FOSSE POR ELE NÓS NUNCA TERÍAMOS NOS CONHECIDO? – Ela esbraveja entre jorros de lágrimas.

Há pouco mais de três anos, em um dia mais ensolarado do que os outros, uma menininha de cabelos longos e negros como a noite, usava um vestido de flores já desbotado e botas marrons cheias de grama. Ela tinha um sorriso estampado no rosto – que poderia ser visto a duas ruas de distância em relação ao seu tamanho – pois era seu aniversário de oito anos. A menina saltitava para todo o canto dizendo à sua amiga o quão feliz estava de ter ganhado um triângulo – claro, ela gostaria de instrumentos mais interessantes como um violão, uma harpa ou um piano, porém sabia que era o que seus pais podiam comprar. 
– Até mesmo o mais chatinho dos instrumentos é mágico quando sabemos tocá-lo bem! E eu vou conseguir mostrar isso! – Ela dizia confiante à sua amiga.    
O sol já estava se pondo e a pequena Michaela tentava tirar algumas notas harmônicas, enquanto isso, observava a floresta debruçada na pequena cerca da escola junto a sua melhor amiga. Um “tlin” pra lá, um “tlan” pra cá e a música surgia naquele momento, foi então que em meio às árvores iniciava-se uma agitação incomum. Michaela terminou de tocar as últimas notas da música que acabara de inventar, uma fenda arroxeada se abriu no céu, deixando tudo escuro a volta e sendo a única iluminação, uma ave negra sai de dentro daquilo – que parece ser um portal – mergulhando em encontro a terra na floresta abaixo do pequeno morro em que elas se situavam. Tudo parecia muito irreal e em poucos segundos já voltara ao normal, boquiabertas passam um extenso tempo fixadas no céu a qual agora aparentava ser noite.
– E-eu… Me diz que tu também viu o que acabou de acontecer Julianna. – Michaela diz com tom de aflição encarando a amiga.
– Isso é impossivel Mike, mas aconteceu… – Julianna fala de modo contemplativo tendo uma expressão atônita em seu rosto. – A não ser que seja delírio coletivo.
– Deli- o quê? – Mike pergunta-a.
– Esquece… Eu preciso ir pra casa. – Diz Julianna apenas indo embora sem nem se despedir.
Na volta pra casa um tornado de pensamentos cerca Julianna, o que acabara de acontecer era incompreensível e seria impossível esconder o quanto a abalara. De fato, ao chegar em casa sua mãe logo a pergunta onde ela se encontrava e o porquê de estar tão estranha.
– Aquela Michaela… Já te disse que ela é má influência, agora ela bota essas minhocas em tua cabeça de pássaros negros que saem de fendas no céu! – Esbraveja a mãe – A partir de hoje não irá mais andar com aquela garota estranha, isto está te fazendo mal!
– Mas mãe… – Ela tenta intervir.
– Está me desobedecendo? – Pergunta-a irada.
– Não mamãe… Me desculpe. – Ela se cala.

Enquanto isso, Mike não perde tempo e vai o mais ágil possível até o que havia saído dos céus. Ela tropeça numa pedrinha no meio do morro e sai rolando em direção a floresta, então choca-se contra uma enorme árvore. Atirada no gramado, com seus joelhos sangrando e seus braços arranhados, subitamente levanta – como se estivesse no ápice do bem estar – e põe-se a procurar a criatura negra. Seus olhos rapidamente averiguam todo o local – que se estivesse com mais tempo poderia ser apreciado, por conta de seus cogumelos e plantas incomuns que cresciam ao redor das árvores – finalmente ela vê algo semelhante a um pássaro se mexendo, então vai em direção a ele. Mesmo estando escuro ela reconhece como um corvo – que estava muito ferido – se aproximando cautelosamente, ela segura a criatura em seu colo e diz serenamente:
– Não se preocupe amiguinho, eu vou cuidar de ti.
– É muita bondade sua… Obrigado… – Crocita em baixo tom o animal.
Um momento de silêncio absoluto toma conta do lugar seguido por uma reação extravagante.
– É O QUE MEU COMPANHEIRO? – Mike se pergunta embasbacada jogando o corvo longe, que por sorte caí em uma pilha de folhas. – Meu deus me desculpa! Eu podia jurar que te ouvi falando, eu acho que estou ficando louca! Quem eu quero enganar, eu estou falando com um corvo, é claro que estou louca! – Simplesmente surta.
– M-mas eu falei mesmo… – A ave fala de novo e nada mais parece fazer sentido.
– A… Certo então. – Ela só aceita, ainda surtando.
– Meu n-nome é Devin, se pudesse me ajudar e-eu ficaria muito grato… – Diz Devin se esforçando muito por conta de seu estado.
– Michaela. Mas pode me chamar de Mike. – Ela transborda de dúvidas, porém não deixa a educação de lado, decide ajudá-lo para depois organizar todas as peças deste quebra-cabeça que sua mente virou.

As lembranças tomam conta de Mike, entretanto volta para realidade quando ouve o sinal da escola, que avisava que o intervalo havia acabado. Se despede de Devin e entra no refeitório para entregar seu prato e talheres. Ela ouve sussurros, “lá vem a solitária que conversa com urubu”, seguido por risadas de um grupo de meninas. Virando-se lentamente para trás ela vê que são quatro meninas – que parecem ser cópias, pois todas usam vestidos rosas com fitas e possuem cabelos loiros e encaracolados – uma das meninas não parece se divertir com aquele comentário porém solta uma risada para não ficar de fora. Floresce um sentimento amargo e instantaneamente os olhos de Mike marejam, ela pula em direção a garota que riu, e puxa os cabelos dela. 
– Foi tu que roubou, não é?! – Ela acusa enfurecida.
– AI! Por que eu roubaria um triângulo idiota? – Grita a garota tentando se defender.
– Então como sabe que é um triângulo!? Diz Julianna! Diz! – Todos olham pasmos para briga e já começa o alvoroço atrás de encontrar a diretora.

O tumulto acaba e as duas garotas se encontram na sala de espera da diretoria. Em alguns minutos são chamadas. “Este comportamento é inaceitável em nossa escola, somos umas das mais elogiadas de Liechtenstein, sabem disso. Portanto, serei obrigada a colocar as duas em detenção durante três semanas, começando por hoje.”, o timbre da diretora era sério. Julianna tenta se defender dizendo que não tinha feito nada de errado e que havia sido atacada, porém foi repreendida. Mike apenas fica em completo silêncio, com um semblante vazio, esperando para voltar a aula.
As horas se passam, vagarosamente como se o dia nunca fosse acabar. Em uma sala quase vazia, três pessoas emitem mudez, estando uma delas praticamente dormindo. Estas são uma professora de meia-idade exausta – que anotava com certa dificuldade num caderno a data de 12 de dezembro de 1978, logo ao lado da palavra “DETENÇÃO” – e duas meninas que, ironicamente, causavam agitação mais cedo. O silêncio é quebrado com os roncos da professora, então uma ideia se passa na cabeça da garota de cabelos negros: dar no pé daquele lugar. Uma das janelas estava aberta para entrar ar, bastava sair por ali e ninguém perceberia. Ela se levanta, pega sua mochila e parte em direção a rua com cautela, mesmo sabendo que não importava o barulho que fizesse, a senhora que ali roncava nem se mexeria. Um par de olhos verdes a observava, lançando desaprovação.
– O que? Vai dizer que isso atrapalha muito a sua vida, July? – Michaela zomba em sussurros.
– Primeiro, sei que têm total consentimento de que isso é errado. Segundo, não me chame assim. E terceiro, antes que eu me esqueça, cale a sua boca. – July revirava os olhos enquanto dizia no mesmo tom que Mike.
– Então, me acompanha princesinha? – Convida Michela.
– Sabe que não vou ficar aqui sozinha. – A loira se levanta aceitando o convite.

Em um cenário já conhecido, com muitos pinheiros e cogumelos, estavam dois indivíduos perambulando. Um deles possuindo um olhar obsessivo que dissecava o ambiente e o outro repleto de dúvida e preocupação. A quietude dissemina, entretanto alguém ousa pará-la:
– Nós poderíamos dar uma pausa, por favor? – Diz Julianna ofegante.
– Não. – Michela responde de forma curta e grossa.
– Sério, por que esse triângulo é tão importante? – July se mete na frente de Mike forçando-a a parar de andar.
– Se está reclamando tanto era só não ter vindo! – Ela explode empurrando a loira.
– Às vezes tu és uma completa idiota! Não sei porquê ainda tento te ajudar! – Julianna também perde as estribeiras.
– Pois também não sei, já que não é minha amiga! Tanto tempo sem olhar na minha cara e agora que me diz algo, é para me ofender? Parece piada! – Michaela aponta o dedo indicador encurralando aos poucos July.
Sentindo-se ameaçada, Julianna dá um passo para trás, porém não havia onde pisar, era o fim da linha, ali acabava a floresta e dava início a um precipício. Bastava um passo em falso e a morte era o seu último encontro. – Curiosamente, o dia estava bom para encontros, a brisa fresquinha, as nuvens vagarosas, o sol tímido escondido entre elas, tudo era perfeito. – E como se o tempo passasse mais devagar, estes eram os pensamentos da menina que caía: “Quem diria que tudo acabaria assim? Quem diria que minhas últimas palavras seriam para xingar alguém tão especial? Ninguém, ninguém diria.” 
Num movimento involuntário Michaela a segura pelos braços e a puxa com toda a força, enquanto fixamente dizia com os olhos que tudo ficaria bem. July, que poucos segundos atrás havia aceitado o fim, vê que ainda há chance do seu final feliz. Ela então começa a escalar com os pés o paredão terroso – mesmo estando muito escorregadio – Mike a puxa cada vez mais e finalmente as duas caem em meio a um abraço, próximo as raízes duma árvore.
– Me desculpa… – um sussurro entre lágrimas e fungadas vem de July, que estava com o rosto encostado no tórax de Mike ainda a abraçando. – Eu nunca quis deixar de ser tua amiga. Eu queria consertar tudo isso, deixar de ser essa boba e te ter de volta, mas é tudo tão difícil! 
– Julianna… – Michaela chama a atenção daquela que chorava. – Está molhando a minha roupa. – Ambas dão uma pequena risada.
– Julianna… – Ela chama de novo, conseguindo novamente os olhos de July. – Tu sempre será a minha melhor amiga!
O abraço que antes servia para amortecer a queda, vira uma demonstração de afeto, carinho, ternura e mais uma infinidade de sinônimos que juntos definem o amor de uma amizade verdadeira. Depois de alguns minutos, Julianna se separa de Mike, aparenta se lembrar de algo e diz:
– Eu preciso te mostrar uma coisa! Faz tempo que eu ando treinando, então espero que goste!
Ela tira uma pequena flauta dum dos bolsos de seu vestido, dá uma longa inspirada e começa tocar algumas notas. Michaela apenas observa, com certa dúvida. Então, a música começa a se formar, soando muito familiar, porém tendo alguns rebuscamentos. Uma memória profunda e marcante vem na mente de ambas e finalmente Mike se lembra, uma lágrima escorre por sua bochecha, seguidas por muitas outras. Era a música da última vez que haviam se falado, a música que havia aberto uma fenda nos céus.
O tão famigerado final feliz estava nas mãos de todos, a amizade recuperada, as brigas esquecidas, nenhuma pessoa ferida brutalmente e logo tudo estaria bem dali por diante. Se não fosse por novamente, aquela mesma melodia, ter aberto um portal ainda maior na frente delas – com toda a escuridão, com todos os brilhos estranhos e o mais importante mas agora vindo da cidade, com Devin voando em alta velocidade em direção à elas. – Somente havia um fator diferente, dentro daquela fenda estranha estava o triângulo, simplesmente flutuando, em um lugar totalmente desconhecido. Por um tempo um pouco maior a abertura se mantém e em questão de segundos tudo volta ao “normal”.

Um comentário:

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