A Condenação
O
soldado do imperador chega próximo à cela onde Vera estava trancada. O tempo
passado ali a deixou com os cabelos maiores que o normal e aparência ainda mais
envelhecida, apesar de ter apenas trinta e dois anos de idade. Bahabás, o
soldado, diz a Vera que o Governador Pôncio Pilatos, havia publicado sua
sentença. Os demais soldados estavam preparando a cruz que ela carregaria pela
cidade, até o alto do monte Amós. Sentada num canto da cela, ela apenas
esperava o momento de sua condenação. Estava suja e com as unhas compridas.
Bahabás abre a cela e pega uma corda para amarrar suas mãos. Aquela valente
mulher da Galiléia estava agora acuada e derrotada, estendendo as mãos para que
seu algoz as amarrasse, deixando-a ainda mais humilhada. Os dois saem pelo
corredor da prisão de pedra, Vera à frente e o soldado, vigilante, logo atrás.
Ela pede ao soldado informações sobre sua filha, afinal, há tempos não a via.
Ele não entende como aquela mulher pergunta uma coisa dessas, após tudo que
aconteceu.
Próximo
à saída da Igreja, Ohana (acompanhada do Pe. Paulo de Oliveira) encontra o
Inquisidor que viera da capital a pedido do padre, a fim de investigar os
últimos episódios ocorridos no pequeno povoado de Bragança, ao norte de
Portugal. O Bispo D. Diogo de Alencastro era um homem alto e moreno, muito reto
e irredutível nas crenças episcopais. Com as mãos atadas, ela chega até a
porta, onde uma multidão aguardava sua saída, apenas um pequeno corredor fora
deixado para que ela passasse. Enquanto Ohana caminhava pela estreita passagem,
populares gritavam insultos a ela: “queimem essa bruxa”, “acabem com a vida
dessa desgraçada”. Uma mulher segurou-a pelo braço e disse que só uma bruxa
faria algo tão terrível com um dos seus. O padre ainda tenta convencer a condenada
a pedir clemência e renunciar às trevas. Mesmo sem entender o motivo de sua
prisão, ela continuava sua peregrinação a caminho do sacrifício.
Caminhando
pelo descampado atrás da fazenda, Ana sente que seu destino está próximo de um
desfecho. Os escravos do coronel Licurgo, liderados por Florêncio – o capitão
do mato – tinham capturado a escrava fujona, em meio à floresta. Havia se
passado algumas semanas desde o episódio e a população de Vila Rica, ansiava
por uma condenação. Aquela negra não podia permanecer solta, o coronel
precisava aplicar-lhe o castigo merecido.
A
tempestade de neve na noite anterior deixou uma grossa camada de gelo sobre o
chão. Aquela manhã começava cinzenta deixando o clima muito pesado. O soldado
Albert Krieg era um dos que acompanhavam Agnes até o galpão onde ela inalaria o
gás até a morte. As tropas nazistas haviam tomado o poder em Varsóvia e
capturavam todas as pessoas da cidade que estivessem aptas para o trabalho
forçado, que começariam a ser utilizadas nos campos de concentração. Usando uma
roupa muito fina e com a cabeça raspada, Agnes não sentia mais o frio negativo
que fazia. Seu corpo não tremia mais como antes, parecia tomada por um torpor
que a deixava num estado hipnótico, seus atos apenas eram um reflexo às ordens que
recebia, mesmo sem entender quase nada de alemão. Seu pensamento se ocupava
apenas em tentar descobrir onde estava sua filha.
Finalmente,
Elisabeth chega ao fim do corredor de celas onde estava e se encaminha à sala
onde a cadeira a aguardava. Vestida com o típico macacão laranja, ela tinha os
pés e as mãos acorrentados. Seu rosto tinha um aspecto que variava da dúvida ao
pavor, ainda não conseguia entender quem havia feito aquilo a sua filha. Na
sala de execução estavam apenas o carrasco e um padre que pediria que se
redimisse de seus pecados antes da passagem. Na parede da sala havia uma janela
de vidro, do lado que Elisabeth estava era um espelho, na outra sala, estavam
quatro testemunhas da execução, dentre eles, o diretor do presídio, o
governador do Texas e o prefeito de Austin. Após receber ordens pelo ponto no
ouvido, o carrasco liga a cadeira, fechando assim, mais um ciclo.
No
dia seguinte, sai a seguinte notícia no jornal mais importante da cidade:
“Ontem,
por volta das três e quinze da tarde, foi executada no presídio estadual de
Austin, a prisioneira Mary Elisabeth O’ Connor, condenada à cadeira elétrica. O
controverso caso teve seu desfecho com o testemunho do governador e do prefeito
que estavam presentes em sala contígua. O’ Connor havia sido presa dois anos
atrás, em maio de 1991, após uma denúncia anônima, a polícia ter encontrado em
sua casa a pequena Ann Marie de nove anos, morta na piscina de sua residência.
Exames feitos na mãe da menina não detectaram nenhum distúrbio psíquico, o que
reforçava a suspeita de homicídio doloso, por ter consciência do que fazia,
além do fato de as duas morarem sozinhas e a garota saber nadar com perfeição.
Em todos os julgamentos posteriores, Elizabeth jurou não saber como a filha
pudesse ter se afogado.
A
única prova que ela dispunha a seu favor era uma carta anônima que recebera uma
semana antes do afogamento, onde uma espírita afirmava que, Elizabeth era
vítima de uma maldição que vinha atormentando jovens mães há várias gerações.
Quando a mãe completasse trinta e dois anos, e a filha nove, a garota morreria
ou desapareceria misteriosamente. Infelizmente a carta desaparece e as mães
acabam sendo condenadas. Segundo fonte anônima, dessa vez, a polícia havia
escondido a carta no mesmo dia em que estiveram na casa.”
Roberto
de Oliveira Silveira (Fevereiro de 2008)