quinta-feira, 18 de julho de 2019

Conto (Exemplo)


A Condenação

O soldado do imperador chega próximo à cela onde Vera estava trancada. O tempo passado ali a deixou com os cabelos maiores que o normal e aparência ainda mais envelhecida, apesar de ter apenas trinta e dois anos de idade. Bahabás, o soldado, diz a Vera que o Governador Pôncio Pilatos, havia publicado sua sentença. Os demais soldados estavam preparando a cruz que ela carregaria pela cidade, até o alto do monte Amós. Sentada num canto da cela, ela apenas esperava o momento de sua condenação. Estava suja e com as unhas compridas. Bahabás abre a cela e pega uma corda para amarrar suas mãos. Aquela valente mulher da Galiléia estava agora acuada e derrotada, estendendo as mãos para que seu algoz as amarrasse, deixando-a ainda mais humilhada. Os dois saem pelo corredor da prisão de pedra, Vera à frente e o soldado, vigilante, logo atrás. Ela pede ao soldado informações sobre sua filha, afinal, há tempos não a via. Ele não entende como aquela mulher pergunta uma coisa dessas, após tudo que aconteceu.
Próximo à saída da Igreja, Ohana (acompanhada do Pe. Paulo de Oliveira) encontra o Inquisidor que viera da capital a pedido do padre, a fim de investigar os últimos episódios ocorridos no pequeno povoado de Bragança, ao norte de Portugal. O Bispo D. Diogo de Alencastro era um homem alto e moreno, muito reto e irredutível nas crenças episcopais. Com as mãos atadas, ela chega até a porta, onde uma multidão aguardava sua saída, apenas um pequeno corredor fora deixado para que ela passasse. Enquanto Ohana caminhava pela estreita passagem, populares gritavam insultos a ela: “queimem essa bruxa”, “acabem com a vida dessa desgraçada”. Uma mulher segurou-a pelo braço e disse que só uma bruxa faria algo tão terrível com um dos seus. O padre ainda tenta convencer a condenada a pedir clemência e renunciar às trevas. Mesmo sem entender o motivo de sua prisão, ela continuava sua peregrinação a caminho do sacrifício.
Caminhando pelo descampado atrás da fazenda, Ana sente que seu destino está próximo de um desfecho. Os escravos do coronel Licurgo, liderados por Florêncio – o capitão do mato – tinham capturado a escrava fujona, em meio à floresta. Havia se passado algumas semanas desde o episódio e a população de Vila Rica, ansiava por uma condenação. Aquela negra não podia permanecer solta, o coronel precisava aplicar-lhe o castigo merecido.
A tempestade de neve na noite anterior deixou uma grossa camada de gelo sobre o chão. Aquela manhã começava cinzenta deixando o clima muito pesado. O soldado Albert Krieg era um dos que acompanhavam Agnes até o galpão onde ela inalaria o gás até a morte. As tropas nazistas haviam tomado o poder em Varsóvia e capturavam todas as pessoas da cidade que estivessem aptas para o trabalho forçado, que começariam a ser utilizadas nos campos de concentração. Usando uma roupa muito fina e com a cabeça raspada, Agnes não sentia mais o frio negativo que fazia. Seu corpo não tremia mais como antes, parecia tomada por um torpor que a deixava num estado hipnótico, seus atos apenas eram um reflexo às ordens que recebia, mesmo sem entender quase nada de alemão. Seu pensamento se ocupava apenas em tentar descobrir onde estava sua filha.
Finalmente, Elisabeth chega ao fim do corredor de celas onde estava e se encaminha à sala onde a cadeira a aguardava. Vestida com o típico macacão laranja, ela tinha os pés e as mãos acorrentados. Seu rosto tinha um aspecto que variava da dúvida ao pavor, ainda não conseguia entender quem havia feito aquilo a sua filha. Na sala de execução estavam apenas o carrasco e um padre que pediria que se redimisse de seus pecados antes da passagem. Na parede da sala havia uma janela de vidro, do lado que Elisabeth estava era um espelho, na outra sala, estavam quatro testemunhas da execução, dentre eles, o diretor do presídio, o governador do Texas e o prefeito de Austin. Após receber ordens pelo ponto no ouvido, o carrasco liga a cadeira, fechando assim, mais um ciclo.
No dia seguinte, sai a seguinte notícia no jornal mais importante da cidade:
“Ontem, por volta das três e quinze da tarde, foi executada no presídio estadual de Austin, a prisioneira Mary Elisabeth O’ Connor, condenada à cadeira elétrica. O controverso caso teve seu desfecho com o testemunho do governador e do prefeito que estavam presentes em sala contígua. O’ Connor havia sido presa dois anos atrás, em maio de 1991, após uma denúncia anônima, a polícia ter encontrado em sua casa a pequena Ann Marie de nove anos, morta na piscina de sua residência. Exames feitos na mãe da menina não detectaram nenhum distúrbio psíquico, o que reforçava a suspeita de homicídio doloso, por ter consciência do que fazia, além do fato de as duas morarem sozinhas e a garota saber nadar com perfeição. Em todos os julgamentos posteriores, Elizabeth jurou não saber como a filha pudesse ter se afogado.
A única prova que ela dispunha a seu favor era uma carta anônima que recebera uma semana antes do afogamento, onde uma espírita afirmava que, Elizabeth era vítima de uma maldição que vinha atormentando jovens mães há várias gerações. Quando a mãe completasse trinta e dois anos, e a filha nove, a garota morreria ou desapareceria misteriosamente. Infelizmente a carta desaparece e as mães acabam sendo condenadas. Segundo fonte anônima, dessa vez, a polícia havia escondido a carta no mesmo dia em que estiveram na casa.”

Roberto de Oliveira Silveira (Fevereiro de 2008)

Um comentário:

  1. Excelente idéia de escrever um conto para nortear o entendimento de como se produz a arte literária. Parabéns!👏👏👏🌟

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